Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procisso;
Volteiam-me crepsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxido.

Batem asas de aurola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhes de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo —
Luto, estrebucho... Em vo! Silvo pra alm...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
pio de inferno em vez de paraso?...
Que sortilgio a mim prprio lancei?
Como que em dor genial eu me eternizo?

Nem pio nem morfina. O que me ardeu,
Foi lcool mais raro e penetrante:
s de mim que ando delirante —
Manh to forte que me anoiteceu.

 


Paris, 4 de maio de 1913
Mário de Sá-Carneiro
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