EM ADRIANO A CHUVA fora era na alma fria.

0 jovem morto jazia
No leito raso e, no todo desnudado,
Aos olhos de Adriano, em dor amedrontado,
Do eclipse da Morte sombria luz descia.
0 jovem jazia morto e o dia era nocturno
Fora. Caía a chuva como um aviso soturno
Da Natureza em afã de o ter matado.
Lembrança do que foi não dava mais prazer,
Prazer do que fora já morto e velado.
Ó mãos que as de Adriano, quentes, agarraram,
Cujo frio de agora frias as achava!
Ó cabelo que faixas de antes apertaram!
Ó olhos algo incertos do que ousava!
Ó corpo viril de feminino ar
Como a forma de um deus humanizada!
Ó lábios rubros abertos p'ra tocar
Os sítios do prazer em arte variada!
0 dedos hábeis no inconfessado!
Ó língua na língua tornando o sangue ousado!
Ó total prazer em trono e em regência
Na raiva da sustida consciência!
Não mais serão estas coisas de amor.
A chuva é silente e o Imperador
Cai junto ao leito. Raiva é seu tormento,
Pois os deuses levam a vida que trazem
E da vida doada a beleza desfazem.
Chora e sabe que todo o futuro tempo
O está fitando ainda antes de ser;
Está seu amor em palco universal;
Choram sua dor mil olhos por nascer.

Morto está Antínoo. Morto para sempre;
Para sempre morto e todo o amor o chora.
A própria Vénus, de Adónis amante,
Ao vê-lo morto, depois de revivido,
Traz seu velho pesar, renovado agora,
E no pesar de Adriano confundido.

Triste está Apolo, pois quem veio roubar
O seu corpo branco é para sempre frio.
Não mais beijos fervorosos nos mamilos
Que sobre o pulsar silente revigora
A vida sentida no abrir do olhar,
Ela em suas veias de Amor fortaleza.
Não mais seu calor pedindo outro calor.
Não mais a mão sob a cabeça aflora,
As mãos unidas, tudo dando em amor
Ao corpo projectado que as implora.

A chuva cai e ele jaz como alguém
Que, esquecido já dos gestos do amor,
Desperto jaz à espera que o calor regresse.
Mas seus jogos e artes a Morte já tem.
Neste humano gelo não mais vibra ardor;
Dum fogo estas cinzas, chama alguma aquece,

Ó Adriano, que será tua vida, fria agora?
De que te vale ser senhor e ter poder?
Em teu império a sua ausência mora
E, como a noite, ela vem descer.
Não mais amanhã, em esp'rança novo ardor.
Ora viúvas as noites de amor e beijos;
Ora da espera nocturna o dia privado;
Ora teus lábios sem alvo de ensejos,
Postos nesse nome, na Morte casado
À solidão, à tristeza e ao temor.

Tuas mãos tacteiam o perdido gozo.
0 cessar da chuva erguer-te já faz
E teu olhar pousa no jovem formoso.
No leito de lembranças, nu, ele jaz;
Por tua própria mão descoberto jaz.
Ali, saciar lhe cabia teu preso sentir
E insaciado, saciando mais, com mais agredir
Em nova saciedade que o sangue ao senso traz.

Em jogos, sua boca e mão sabiam refazer
Os desejos, depois dos quais teu dorso dorido.
Por vezes tudo te parecia sem sentido
A cada impulso de volúpia chupada.
Então novos motivos tinha de prazer
Na carne de teus nervos, a tremer,
Caindo em coxins, a mente apaziguada.

«Belo era o meu amor, mas com melancolia.
Tinha aquela arte, que cativo fazia
O amor, de ser triste em raiva e cupidez.
Agora o Nilo o devolveu, o Nilo eterno.
Sob anéis molhados, da Morte a lividez
A lutar com nosso querer num sorriso terno.»

Mesmo enquanto pensa, sendo o prazer mera
Memória do prazer, revive, e tomando
Os sentidos pela mão, a carne acordando,
Tudo volta a ser o que dantes era.
O corpo morto no leito se ergue e vive
E deita-se com ele perto, inda mais perto,
E mão invisível, sábia, a rastejar
Em cada entrada do prazer desperto
Segreda carícias que, embora furtivas,
Deixam as últimas fibras a sangrar,
Ó doces e cruéis da Pártia fugitivas!

Assim se ergue um pouco, olhando o amante,
Que o que pode amar não o sabe ninguém.
Mal vendo no ver fixo, vagamente,
Passa os lábios frios p'lo corpo jacente.
E tão insensível sua boca tem
Que mal sente a morte no cadáver frio,
Os dois parecendo mortos ou ambos vivendo,
0 amor inda sendo a presença que acende.
E nos lábios dormentes seus lábios suspende.

A falta do hálito lhe recorda a boca
Que para além dos deuses se fez bruma
Entre ele e o jovem. Dos dedos as pontas
Em vão procurando sobre o corpo alguma
Resposta carnal ao seu despertar.
Mas sua pergunta de amor sem resposta: Morto está o deus, cujo culto, o beijar!

Levanta ao alto as mãos p'ra onde o céu devia,
Chorando aos deuses mudos sua dor.
Vós que tudo podeis, olhai a agonia
Complacentes! Seu reino em troca por amor.
Em ermos desertos viverá ressequido,
Em longos caminhos de pedinte ou escravo,
Mas volvei aos braços, quente, o jovem querido!
Renunciai ao túmulo a ele destinado!

Tomai da terra a beleza feminina
E num aterro vertei o que restar!
Mas, pelo doce Ganimedes que, acima
De Hebe, Jove elegeu p'ra lhe vazar
A taça em seus festins e instilar
O amor de amigo que enche o vazio,
A terra, de abraços femininos, rasai
Em pó, ó pai dos deuses, mas poupai
Deste jovem o corpo, a dourada cabeça!
Talvez teu melhor Ganimedes pensaste
Que seria e, por ciúmes da beleza,
Dos braços de Adriano para os teus roubaste.

Ele era um gatinho com o prazer a brincar,
O seu e o de Adriano, um só às vezes,
Às vezes dois, ora se unindo, ora afastando;
Ora o jogo deixando, ou seu auge adiando;
A olhar de soslaio, sem o gozo encarar
Saltando em redor a surpreendê-lo;
Ou suave a tocar, ou em fúria a agarrar,
Ora a sério, ora brincando a brincar
Ao lado deitado, fitando ou espiando
Na sua recusa o como prendê-lo.

Assim as horas, das mãos juntas, a passar,
Momentos fugindo aos membros envolventes.
Os braços folhas mortas ou ferro a apertar;
Ora taças os lábios, ora coisas sorventes;
Ora os olhos cerrados, ou de mais fitando;
Ora o furor intermitente funcionando;
Suas artes pluma ou chicotes ardentes.

Esse amor foi vivido qual religião
Oferecido aos deuses que aos humanos descem.
As vezes adornado, usando então
Meias vestes ou em nudez e pulcritude
Imitando alguns deuses que, p'la virtude
Do mármore, aos homens se parecem.
Ora ele era Vénus, saindo do mar;
Ora era Apolo, jovem e dourado,
Ora como Jove, julgando a troçar
Com o escravo amante a seus pés deitado;
Ou actuado rito por alguém seguido,
Contínuo mistério reposto e repetido.

Agora ele é algo que se pode igualar.
Ó dura negação daquilo que se tem!
Ó encanto louro de tal frio lunar!
Frio de mais! De mais! E o amor frio também!
Amor p'las memórias de amor a vaguear
Como em labirinto, triste alegre loucura,
E já chama seu nome e clama sua vinda
E já lhe sorri, ao seu vir sonhado
Que está no coração, rosto em sombra escura —
Só sombras de luz das formas do passado.

A chuva voltou como vaga dor
Deixando humidade no ar penetrante.
Súbito, pareceu ao Imperador
Que via o quarto e tudo nele distante.
Via o leito, o jovem, e seu corpo lançado
Contra o leito, ele próprio tornado
Presença mais clara dele, e murmurou,
Na alma temente o que não ousou:

«Erguer-te-ei uma estátua que será
Prova em contínua, futura idade
De meu amor, beleza tua e divindade
A que a beleza sentido dá.
Já que a morte, com leve mão, vem arrancar
As vestes da vida e de império ao nosso amor,
A sua estátua nua, que tu hás-de inspirar,
As gerações futuras, de bom ou mau grado,
Como um dote trazido por um deus forçado,
Inevitavelmente haverão que herdar.

«Sim, esta tua estátua eu hei-de erigir
E pôr sobre o pináculo de te pertencer
P'ra que o tempo, por seu crime, vá temer
Corroer-lhe a vida ou de inveja infligir
Guerra por raiva, ao volume e pedra.
Não será esse o Fado! Os deuses mesmos
Que tudo mudam, do próprio Fado a mão,
Que na treva os supera, evitarão
Que tua estátua e meu dom se vão perder
E o mundo de ti falho não vai ser.

«Esta imagem de amor os tempos cruzará.
Alva há-de surgir do passado e ser
Eterna como romana vitória;
Em cada coração futuro raiva dará
De, à idade deste amor, não pertencer.

«Mas, oh, que isto assim não devesse ser
E tu fosses rubra flor, a vida a perfumar,
Grinalda na fronte de meu prazer,
Da alma a chama viva no altar!
Pudesses tu sorrir de tudo isto agora,
De sob as pálpebras da morte fingida
E pasmar como pude assim desafiar
Os deuses por tua presença e luz perdida;
Nada nisto houvesse que uma dor vazia
E que teu sorriso viesse consolar
O que a dor proíbe ao sonho esperar.»

Qual amante que espera assim ele ia
De lado a lado da mente confusa, duvidando.
Ora esperança era um intento, forma dando
Ao seu desejo, ora cego se sentia
No meio do sonhado, indefinido anseio.

Se o amor encontra a morte, que sentir?
Se a morte vence o amor, o que saber?
Ora a dúvida esperava, ora a esperança duvidava;
Ou do sonhado desejo seu sonho zombava
Para ao vazio vão e gelado o conduzir.
De novo os deuses sopravam a chama a esmorecer.

«Tua morte me deu mais alto cio —
Desejo carnal de eternidade em furor.
Por meu destino imperial ora confio
Que os altos deuses, por quem fui Imperador,
Não impeçam de vida mais real
Meu voto, que sempre vivas teu ensejo
Em sua melhor terra, presença carnal
Mais bela, não mais belo, pois que não
É possível aí desfigurar nosso desejo
Nem atingir-nos mudança, tempo ou mal.

«Amor, amor, ó meu amor! Já és um deus.
A ideia que por voto vou tomar
Voto não é, mas visão dada dos céus
Por deuses que amor amam, para doar
Aos corações mortais, em forma de desejo —
Cujo alcance não sabemos do desejo —
Uma visão das reais coisas de além
Da nossa vida em si presa, em preso senso.
Oh, o que quero que sejas, tu já és.
Já no solo do Olimpo andam teus pés
E és perfeito e, como tu, imenso
Pois não precisas exceder-te em condição
De ser perfeito, tu mesmo a perfeição.

«Meu coração canta qual ave matinal.
Grande esperança dos deuses me vem
E o coração mais fina ideia tem
De não pensar de ti o estranho mal
Que seria pensar-te só mortal.

«Amor, amor, meu amor-deus! Deixa beijar
Nos lábios frios os quentes lábios imortais
E, feliz, nos portais da Morte eu te saudar,
Pois para os deuses, da Vida são portais.

«Não te houvera Olimpo, e meu amor
Te faria único deus e único poder
E eu único devoto, feliz de o ser,
P'ra todo o sempre teu só adorador.
Houvera um mundo de basta divindade
Para o amor, para mim e o que me és.
Ter-te é coisa feita da essência dos deuses
E olhar-te o melhor quinhão de eternidade.

«Mas isto é arte própria minha e em verdade:
O deus que ora és foi corpo feito por mim,
Pois se és agora carnal realidade
Além onde se envelhece e a noite é sem fim,
Isto o deves ao poder do amor meu
Que à tua memória vida concedeu
E a fez carne. Não tivesse amor tomado
Em legiões o império de meu querer,
E tu, ao convívio dos deuses, não forçado.

«Meu amor que te encontrou quando te achou,
Apenas achou seu corpo e aspecto exacto.
Assim, agora que à tua memória dou
Ordem de ser deus, lá onde os deuses são,
Só ergo à coluna da morte a forma que tomou
E lá no alto a ponho, de amor pura visão.

«Meu amor, sobe por minha vontade fera
De amar, até Olimpo e sê lá, de amor,
O último deus, cabelos de mel a cor
Com divinos olhos! Tal como na terra
No céu corporeamente sê, a vaguear
De ventura cativo nessa morada
Com antigos deuses, que aqui vou levantar
Uma estátua, por tua imortalidade.

«Mas a estátua imortal que te erguerei
Não será de pedra, mas dessa saudade
Pela qual quero do amor a eternidade.
Um lado dela és tu, como os deuses agora
Te vêem, e o outro, aqui, tua memória.
Por minha dor deus dos homens te farei,
Tua memória nua sobre o parapeito
Que dá para os mares da futura história.
Alguns de nosso amor os crimes só dirão;
Outros em nossos nomes faca afiarão
No ódio que o belo à beleza deve,
E deles farão base do monte onde porão
Os nomes de irmãos nossos em desprezo breve,
Mas nossa presença, como eterna a Manhã,
Sempre à hora da Beleza voltará
Do Nascente do Amor em luz que envolverá
Novos deuses para adornar a terra vã.

«Tudo o que és agora és tu próprio e eu.
Nossa dual presença tem sua unidade
Naquela perfeição corpórea que amor meu,
Por amá-la, se tornou, e da vida ergueu
À divindade, calmo acima do lutar
Dos tempos e das paixões sempre a mudar.

«Mas já que nos homens os olhos mais vêem
Que a alma, em pedra direi a minha dor;
Desejoso que a tua presença anseiem,
Ao mármore levarei este desgosto
Como astro enorme em meu coração posto.
Mesmo em pedra, tão grande será o amor
Em tua estátua nossa, qual divino fado,
Essência de amor incarnado e descarnado,
Que, como trombeta os mares atravessando,
De continente em continente navegando,
Nosso amor, uno em morte, dor e felicidade
Dirá por todo o infinito e eternidade.

«E aqui, memória ou estátua, ficaremos
Como dantes, mãos dadas, um só seremos
Nem sentindo as mãos p'ra sentir o sentir.
E os homens me verão ao te encontrar.
Podiam ir-se os deuses todos no vasto rodar
Dos tempos circulares. Mas se, só por ti,
Um deles, no bando ido tiveras que ir,
Viriam, como se dormissem para despertar.

«Então, o fim dos tempos, com Jove a renascer
E por Ganimedes servido em sua festa,
Veria nossa alma dual da morte liberta
E recriada em medo, dor e prazer —
Tudo o que em si o amor contém;
Vida — toda a beleza que em volúpia vem
Do próprio amor do amor, de encanto seduzida;
E se a memória de nós fosse pó e ruína,
Do fim dos tempos, por raça divina,
Nossa dupla unidade seria renascida.»

Chovia ainda. A noite lenta havia descido
Cerrando as pálpebras exaustas dos sentidos.
A própria consciência do eu e da alma
Vaga, como na vaga chuva é a paisagem.
O Imperador jazia e tal era a calma
Que meio esquecia aonde, e donde esse mal
Que nos seus lábios ainda era sal.
Pergaminho enrolado, tudo longe agora.
E tudo o que sentiu era como o halo
Que envolve a lua quando a noite chora.

A cabeça pendia sobre os braços jacentes
No leito baixo, ao sentir indiferentes.
Seus olhos cerrados, cria abertos, vendo o chão
Nu, negro, frio, triste e sem razão.
Seu respirar dorido, eis tudo o que ele sabia.
Do escuro que tombava viu-se o vento erguer
E cair; no pátio uma voz a desaparecer;
E o Imperador dormia.

                     Os deuses chegaram
E, não se sabe como, então algo levaram
Em invisíveis braços de paz e poder.

 

1915

In POESIA INGLESA II , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 2000
Fernando Pessoa
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