Forma de Beleza me veio visitar,
Coisa mais doce do que em terra ou mar
Ou em algo do Tempo esteja contido
Ou revelado ao coração dorido.

Partiu e fui longe para a procurar,
Caminhos andei em longo penar,
E eu perguntei a quem encontrei:
«Vistes a donzela? Dizei, oh, dizei!»

E todos: «Não, o vento só sentimos
Sussurrar às flores o que não ouvimos,
Vendo tenras folhas beijar e tremer
Como memórias dum ido prazer.»

Perguntei na estrada a um viandante:
«Viste a donzela que busco, distante?»
«Não», disse ele, «só a lua a pousar
Na tumba dos mortos, como um pensar».

Outros questionei: «Sabeis da donzela
Cuja beleza se perde, de bela?»
«Não», disseram eles, «nada conhecemos
Mais belo que o céu e as flores que temos».

E por longe andei e lá perguntava:
Ninguém conhecia a que eu invocava;
Sabiam dos ventos, leve o sussurrar,
Qual boca tremente ao primeiro amar.

Relva, árvores e flores eles visto tinham
Florir como coisas que logo definham;
E tinham olhado p'ra trás caminhando
E árvores e flores já estavam secando.

Então perguntei a um louco sem lar,
Que disse: «Ai de ti, tanto vaguear!
Virás a acabar no que agora sou,
Pois a que procuras ninguém encontrou.

Vive num país além do amor,
Acima de toda a humana dor;
Em palácio e trono de sonho lavrado,
Eternamente só é o seu reinado.

Faz o poeta penar de desejo
Tocado uma vez por divino beijo,
Beijo a que se segue eterna amargura
Pois dor é a bênção da sua ternura.»

 

 

1907

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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