a

Agora que os dedos da Morte à roda da minha garganta
Sensivelmente começam a pressão definitiva...
E que tomo consciência exorbitando os meus olhos,
Olho pra trás de mim, reparo plo passado fora
Vejo quem fui, e sobretudo quem não fui,
Considero lucidamente o meu passado misto
E acho que houve um erro
Ou em eu viver ou em eu viver assim.
Será sempre que quando a Morte nos entra no quarto
E fecha a porta à chave por dentro,
E a coisa é definitiva, inabalável, 
Sem Cour de Cassation para o nosso destino findo,
Será sempre que, quando a meia-noite soa na vida,
Uma exasperação de calma, uma lucidez indesejada
Acorda como uma coisa anterior à infância no nosso partir?
Último arranco, extenuante clarão, de chama que a seguir se apaga,
Frio esplendor do fogo-de-artifício antes da cinza completa,
Trovão máximo sobre as nossas cabeças, por onde
Se sabe que a trovoada, por estar no auge, decresceu.
Viro-me para o passado. Sinto-me ferir na carne.
Olho com essa espécie de alegria da lucidez, completa
Para a falência instintiva que houve na minha vida. 
Vão apagar o último candeeiro
Na rua amanhecente de minha Alma!
Sinal de □
O último candeeiro que apagam!
Mas antes que eu veja a verdade, pressinto-a 
Antes que a conheça, amo-a.
Viro-me para trás, para o passado, não vivido;
Olho e o passado é uma espécie de futuro para mim.
Mestre, Alberto Caeiro, que eu conheci no princípio
E a quem depois abandonei como um apontamento reles.
Hoje reconheço o erro, e choro dentro de mim.
Choro com a alegria de ver a lucidez com que choro
E embandeiro em arco à minha morte e à minha falência sem fim.
Embandeiro em arco a descobri-la, só a saber quem ela é.
Ergo-me enfim das almofadas quase cómodas
E volto ao meu remorso sadio. 

b

Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira

É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!
Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.

Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento.
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões os  □ mares
Curso evidente dos rios

Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vos!

Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas.
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior.
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.
Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na rua porta sobre o mundo.
Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe…
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto.
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo.
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.


c

 

E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o  □
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a todas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos OS sertões do raciocínio,
O  □
0 Criador de Weltanschauungen.
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem.
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar.
Eia — por ai fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista, Eia por aí fora…
Ave atque vale. ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um  □
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência

(E até á aterrissage final do meu aero  □)    
Uma grande conglobação das sensações incontíguas
Veloz, silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu […]
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos.
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para alem do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto.
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível.
Sulco de movimento no estaleiro das coisas.
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática –
S-S-S-SS-SSS
z-z-z-z-z-z automóvel divino


d

 

E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo por detrás delas. o universo inteiro, ponte que finda

 

e

 

A morte — esse pior que tem por força que acontecer;
Esse cair para o fundo do poço sem fundo;
Esse escurecer universal para dentro;
Esse apocalipse da consciência, com a queda de todas as estrelas —
Isso que será meu um dia.
Um  dia pertíssimo, pertíssimo,
Pinta de negro todas as minhas sensações,
E é a areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos
O pensamento e a vida.
A gare no deserto, deserta;
O intérprete  mudo:
O boneco humano sem olhos nem boca:
Embandeirado a fogo-fátuo
Num mar que é só puro espaço
Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...
Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente
E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos.
Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...
As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço
Se abram ao vento soprando de um buraco sem fim
E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.
Estica um horror consciente no gemer dos cabos
O ruído do ranger da madeira e dentro da alma...
O avanço velocíssimo é uma coisa que falta.
E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente
f
Entremos na morte com alegria! Caramba
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos;
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Coisas onde há dor e sangue e moléstias
(Merda para isso tudo!)
Estou morto, de tédio também. Eu bato a rir, com a cabeça nos astros
Como se desse com ela num arco de brincadeira
Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor.
Irei vestido de astros; com o sol por chapéu
No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.
Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa
Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda'
Eu sou Eu
Viva eu porque estar morto! Viva!
Eu sou eu.
Que tenho eu com a roupa-cadáver que deixo?
Que tem o cu com as calças?
Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?
O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?
Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.

Eu assombroso e desumano,
Indistinto a esfinges claras,
Vou embrulhar-me em estrelas
E vou usar o Sol como chapéu de coco
Neste grande carnaval do depois de morrer.
Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido
Do vasto céu arqueado do mundo.
Animando a monotonia dos espaço abstractos
Com a minha presença subtilíssima.

 

g


Todos julgamos que seremos vivos depois de mortos.
Nosso medo da morte é o de sermos enterrados vivos.
Queremos ao pé de nós os cadáveres dos que amámos
Como se aquilo ainda fosse eles
E não o grande maillot interior que a nascença

 

h


Quando for a Grande Partida.
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão [...] para os nervos
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas.
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora) estas saudades súbitas e sem                 [objecto.
Este subir do nosso feminino ao olhar  que se vela e é materno para as coisas  pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas  dos sapatos da nossa                  [infância,

Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente
□,


i


Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos —
Eu os aperto a meu peito, com o filho que encontrasse o pai perdido.

Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos - os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves.
Os animais todos, tão reais sem mim.
Os homens, as mulheres, as crianças.
As famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Indo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e cessa sem angústia nem nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada e mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.

Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei.
Eu, que via em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos,

Verdadeiramente com meus olhos.
Verdadeiramente verdadeiros...
Ah vi que não há morte alguma!
Vi que  □

 


j

 

Não há abismos!
Nada é sinistro!
Não há mistério verdadeiro!
Não há mistério ou verdade!
Não há Deus, nem vida, nem alma distante da vida!
Tu, tu mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!
Mas ainda não viste tudo: tudo é mais ainda!
Alegre cantaste a alegria de tudo.
Mas sem pensá-lo tu sentias
Que é porque a alegria de tudo é essencialmente imortal.
Como cantaras alegre a morte futura
Se a puderas pensar como morte,
Se deveras sentiras a noite e o acabamento?
Não, não: tu sabias
Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro.
Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo
Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse.
Que cada momento não passa nunca.
Que a flor colhida fica sempre na haste,
Que o beijo dado é eterno,
Que na essência e universo das coisas
Tudo é alegria e sol
E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.
Embandeira em canto e rosas!

E da estacão de província, do apeadeiro campestre.
— Lá vem o comboio!
Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos
Saudemos em ouro e flores a morte que chega!

Não, não enganas!
Avó carinhosa de terra já grávida!
Madrinha disfarçada dos sentimentos expressos!

E o comboio entra na curva, mais lento, e vai parar...
E com grande explosão de todas, as minhas esperanças
Meu coração universo
Inclui a ouro todos os sóis,
Borda-se a prata todas as estrelas,
Entumesce-se em flores e verduras,
E a morte que chega conclui que a já conhecem
E no seu rosto grave desabrocha
O sorriso humano de Deus!

 

l
I

 


Eu cantarei,
Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz venerada
Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu desígnio esperá-la-á sem segundo pensamento


II

 

Perto da minha porta
Onde brincam as crianças dos outros.
Rompe um canto infantil disciplinado e cómodo,
E eu sou a quinta criança ali, se houver só quatro,
E ninguém me abandonar embora eu não esteja lá.
Canto talvez, dormindo transparente e calado,

 

m


E se todos ligam pouca importância à morte, nem conseguem
Sofrendo, ler verdadeiramente a concentração de sofrer,
É que a vida não crê na morte, é que a morte é nada.

Embandeira em arco, a todas as cores, ao vento
Sob o grande céu luminoso e azul da terra...
Danças e cantos,
Músicas álacres,
Ruídos de risos e falas, e conversas banais,
Acolham a morte que vem, porque a morte não vem,
E a vida sente em todas as suas veias.
O corpo acha em tudo o que nele é alma.
Que a vida é tudo, e a morte é nada, e que o abismo
É só a cegueira de ver,
Que tudo isto não pode existir e deixar de existir,
Porque existir é ser, e ser não se reduz ao nada.
Ah, se todo este mundo claro, e estas flores e luz.
Se todo este mundo com terra e mar e casas e gente.
Se todo este mundo natural, social, intelectual,
Estes corpos nus por baixo das vestes naturais.
Se isto é ilusão, porque é que isto está aqui?
Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!
Se isto não é, por que é que é?
Se isto não pode ser, então porque pôde ser?

Acolhei-a, ao chegar,
A ela, à Morte, a esse erro da vista,
Com os cheiros dos campos, e as flores cortadas trazidas ao colo.
Com as romarias e as tardes pelas estradas,
Com os ranchos festivos, e os lares contentes.
Com a alegria e a dor, com o prazer e a mágoa.
Com todo o vasto mar movimentado da vida.
Acolhei-a sem medo,
Como quem na estação de província, no apeadeiro campestre,
Acolhe o viajante que há-de chegar no comboio de Além.
Acolhei-a contentes,
Crianças cantando de riso, corpos de jovens em fogo,
Alegria rude e natural das tabernas,
E os braços e os beijos e os sorrisos das raparigas.
Embandeira em arco a cores de sangue e verde,
Embandeira em arco a cores de luz e de fogo.
Que a morte é a vida que veio mascarada,
E o além será isto, isto mesmo, noutro presente
Não sei de que novo modo diversamente.
Gritai ás alturas,
Gritos pelos vales.
Que a morte não tem importância nenhuma.
Que a morte é um disparate,
Que a morte é um  □
E que se tudo isto é um sonho, é a morte um sonho também.


n

 

Meu amor perdido, não te choro mais, que eu não te perdi!
Porque posso perder-te na rua, mas não posso perder-te no ser,
Que o ser é o mesmo em ti e em mim.

Muito é a ausência, nada é perda!
Todos os mortos — gente, dias, desejos,
Amores, ódios, dores, alegrias —
Todos estão apenas em outro continente...
Chegará a vez de eu partir e ir vê-los.
De se reunir a família e os amantes e os amigos
Em abstracto, em real, em perfeito
Em definitivo e divino.

Reunir-me-ei em vida e morte
Aos sonhos que não realizei
Darei os beijos nunca dados,
Receberei os sorrisos, que me negaram,
Terei em forma de alegria as dores que tive...

Ah, comandante, quanto tarda ainda
A partida do transatlântico?
Faz tocar a banda de bordo —
Músicas alegres, banais, humanas, como a vida
Faz partir, que eu quero partir…

Som do erguer do ferro, meu estertor
Quando é que por fim eu te ouvirei;

Fremir do costado pela pulsação das máquinas —
Meu coração no bater final convulso —,
Toque das vigias, suspiros do porto

Lenços a acenarem-me do cais em que ficam…
Até mais tarde, até quando vierdes, até sempre!
Até o eterno em alegre Agora,
Até o  □

 

o

 

Grande libertador.
Que quebraste as algemas de todas as mortes — as do corpo e as da alma,
A morte, a doença, a tristeza
A arre, a ciência, a filosofia,
Cirande libertador
Que arrasaste os muros da cadeia velha
E fizeste ruir os andaimes da cadeia nova.
Que abriste de par em par as janelas todas
Das salas todas de todas as casas
E o vento real limpou do fumo e do sono
As salas dadas aos prazeres das salas,

 


p

 

Agora que estou quase na morte e vejo tudo já claro,
Grande Libertador, volto submisso a ti.

Sem dúvida teve um fim a minha personalidade.
Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa
Mas hoje, olhando pra trás, só uma ânsia me fica —
Não ter tido a tua calma superior a ti-próprio,
A tua libertação constelada de Noite Infinita.

Não tive talvez, missão alguma na terra,

 


q

 

Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados
O esplendor do sentido nenhum da vida...

Toquem num arraial a marcha fúnebre minha!
Quero cessar sem consequências...
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo,


□ espaço deixado em branco pelo autor


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
« Voltar