XXII 

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa 
E espreita para o calor dos campos com a cara toda, 
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa 
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber 
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem me mandou a mim querer perceber?   
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que isso é senti-lo...

 

In O Guardador de Rebanhos


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001
Alberto Caeiro
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