Não sei se tédio apenas, se (é) saudade
Esta sombra de mágoa que me invade
Quando a tarde é tão bela que parece
Que tem uma alma, e essa alma transparece
No corpo cor e fluidez da Hora...
Não sei o que é, mas dentro em mim Eu chora...
Oh pórticos abertos sobre mares
Azul, sonho, janelas para luares
De terras onde a Hora imaginada...
Há tanto tempo e em vão eu busco a estrada
Que vai de não vos ter para vos ter
Ainda que ela passe por morrer
E os sonhos todos do Horror passado
Que eu fui antes de ter avistado
Este aspecto exterior do mundo-vida,
Ainda que por eu descida
Por precipício ela passa, ou quero
Ir para onde acharei o que não ‘spero,
E o que não espero excede o imaginado
Por quanto o Belo, em si excede o Belo ideado...
Ó pórticos vários de conter-me
Ainda, ó remos que nenhuma mão
Ergue e que sois do barco que há ter-me
Quando acabar a Vida e a Ilusão,
Ó outras-margens esperando a vinda
Da minha vida, ó cais aonde finda
Minha viagem por terra de além-mundo
E começa a do mar mais que profundo
Que leva a vida da Alma para Deus...
Ó tarde que não cabes nestes céus,
A quem pertences? quem te pôs o nome
Interior que te faz dar a fome
De saudades novas, e de amores
Mais da espécie da alma e dos sabores
A etéreo que a alma espera e a alma quer
Aos espíritos a quem a vida fere;
Ó tarde tão perfeita que me dói
Ver-te, que esperarei de ti. Destrói
8 - 12 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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