Chamo por ti,
Chamo por ti, com versos fraternais.
Nunca te vi,
Mas nascemos os dois dos mesmos pais.

Chamo em nome da vida, que me ordena
Que te diga a verdade;
É o meu lenço que acena,
Mas o cais é de toda a humanidade.

Deixa as sombras e vem!
És homem como eu sou, hás-de gostar
De pisar com desdém
A herança que não podes renovar.

O passado é o passado — já morreu.
Grande é o futuro por nascer.
Nenhum fruto maduro prometeu
O que a semente pode prometer.

Do que foi embebedas a lembrança.
Do que há-de ser, estremeces!
Vindo, voltas a ser criança;
Mas aí, apodreces.

Chamo por ti, de manso,
Numa ordeira canção;
É uma ponte se sonho que te lanço…
Passa por ela, irmão!

 


In Nihil Sibi
Miguel Torga
« Voltar