Onde o sossego dorme
Como se fosse alguém
E à noite negra e enorme
Nem luar nem dia vem —

Ali, quieto, absorto
Em nada já saber,
Quero, quando for morto,
Consciente esquecer...

Deixando a vida incerta,
Perdido o gozo e a dor,
Sob essa noite aberta
Sonhar sem o supor…

Até que ao fim de uma era
Que o tempo não contou
O que eu não reavera
Se muda no que eu sou.

E então, como que alheio
A quanto sucedera
Continuar no enleio
Do sono que me dera.

19 - 11 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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