IV

 

Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo,
Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço
Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa
E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água... 
Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo,
Meios-dias nas eiras abandonadas,
Tardes noites para encontros em outras margens de rios,
Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa
E descei sobre a minha alma...
Vós ó campos repousados e incivilizados.
Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação.
Vós ó jardins públicos às tardes visitados
Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares, 
E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite.

 


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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