Não quero pedir nada ao fado e à vida.
Nada vale pedir—lhes, porque são
Dependentes de uma outra coisa ida
Que não lhes deixou forma nem razão.

Para que hei eu de pedir glória ou esmola
A quem não tem licença para ser?
O ar suficientemente me consola
Por existir, e o campo com’ o ver.

Não, nada peço. Quando a prece é inútil
Ë prolixo o mais curto do rezar.
Se a natureza é assim tão falsa e fútil
De que serve sentir, crer ou pensar?

Há ramos altos cuja sombra espalha
Um sossego de fresco sobre nós,
E há um som de água, que ao cair da calha,
Nos faz mais sonolentos e mais sós.

Isso sim, isso... O resto é o que o mundo
Tem por glória ou amor ou isenção.

19 - 9 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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