Bate dura na vidraça
A chuva que o vento açula.
Bate, cessa; bate e passa.
Minha sensação é nula.

Acostumado a sentir
O que os outros já sentiram,
Não sei com que alma hei-de ouvir
Aquilo que outros ouviram.

Não sei se hei-de achar-me bem
Em casa, ouvindo chover,
Ou chorar que a chuva tem
Um pranto por esquecer.

E assim me vou distraindo
Da chuva que bate ou cessa,
Sem saber se estou sentindo,
Com a íntima alma possessa

De não saber se hei-de ser
Quem sou ou quem eu seria
Se eu fosse quem o chover
Convencesse que chovia.

1 - 1 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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