Para além do silêncio das estrelas
Onde nem rareado chega o grito
Da nossa dor, nessas paragens belas
Donde (paragens lúcidas e belas)
O Absurdo do Real anda proscrito.

Nesse infinito além do infinito’
Que da medida do real constrói
A alma insensata em sonhos, que destrói
Na própria corrupção a realidade
Do conhecer  — nessas paragens
Com figuras de  imagens,

Dorme, sorrindo à ilusão da vida
À falsa falsidade do viver
Uma figura estranha e indefinida
Cuja expressão  dolorida
Não nos ensina a crer nem a descrer.

Dorme e sobre O seu seio que não bate
Como batem na terra os corações,
Há como que uma vida sem remate
Quer de ilusões quer de desilusões;

Dorme e não sonha porque só na vida
Se sonha; dorme; e suave e indefinida
Vai longe dela a ideia de sentir
E nos lábios subtis erra perdida
Uma sombra de dor e de sorrir.


 espaço deixado em branco pelo autor

 

5 - 3 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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