fulgurações com a água da chuva escorrendo
escondidas vozes num sujo vão de escadas
o céu turvo pelo desejo ácido da noite

estás sentado e ouves o desmoronar dos dias
contra o mar que te revela as tristes histórias
do espelho onde a criança matou a sua imagem

ruas desertas passam rente ao coração
saliva no movimento circular do corpo debaixo
doutro corpo que não conhece o dom de se entregar
ao tempo voluptuoso doutras mãos

levanta a gola do casaco sai para a rua
alarga o passo
deixa fustigarem-te as horas noite dentro
e no sangue sepultarem a insuspeita frescura
daquilo que ainda te falta cantar

 


In O Medo
Al Berto
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