Movem nossos braços outros braços que os nossos,
Falam na nossa boca lábios que não nos pertencem
Não somos agentes; nós somos acções — os destroços
De gestos apenas metade neste mundo em que a vida
Passa como um cortejo em que os olhos de Deus pensem
E entre ele e o cortejo pensado há quem age esta lida.

Somos cartas mandadas de espírito para espírito na treva
Quebrada a ponte, nós somos a ponte, e isso é falso...
Farrapos das intenções dos anjos que a treva leva
E ao alto de cada alma nossa ergue-se um cadafalso...

Tudo isso se passa entre Deus e o ser que não temos
E no intervalo chora o som da ida nos remos.

27 - 4 - 1916

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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