Crecendo vai meu mal de hora em hora;
creio que quer Fortuna que perea,
segundo contra mim sua roda guia,
pois, se a vida faltar, a pena crea,
que por muito que crea, cruel Senhora,
por fim fim h-de ter sua porfia.
Ũa cousa de ti saber queria:
que ganhas em perder-me?
Que perdes em valer-me,
se custa de me olhares brandamente
me podes ter contente?
E com me dar remdio e bem-fazeres
no deixars por isso ser quem eres.

Se minha pena esquiva e meu tormento
te desse de alegria algũa parte,
contente viveria assi penando;
porque, como pretendo contentar-te,
me estaria sumamente deleitando;
mas claramente estou de ti notando
nesses teus olhos belos,
se acerto uma hora v-los,
quo pouca conta tens co que padeo.
Ai que mui bem conheo,
pastora, que por meu destino e sorte
tens essa condio to dura e forte.

Um tigre, qualquer fera irracional,
com sua asperidade, tem amor,
e por ele vive em paz silvestremente:
das aves, a maior e a menor,
todas com um distinto natural
possuem amor, e o tm naturalmente.
E tu, de perfeio to excelente,
de tanta honestidade,
de tanta divindade,
de tanta galhardia e gentileza,
somente tens crueza!
Creio que com razo a ti compete
o nome da cruel Anaxarete.

Se cuidas que servir-te no mereo
por minha indinidade e tua valia,
engana-te, pastora, o pensamento;
que, se tens gentileza e galhardia,
eu tenho f e amor de tanto preo
que me iguala com teu merecimento.
Mas, pouco presta ter tal fundamento
quem tem contrrio o Fado:
amar-te me forado;
teu merecer altivo me faz fora;
mas, quanto mais me esfora
a f de meu amor e a confiana,
mais me desdenhas tu, com esquivana.

Que vale tua gentileza e alegre vista?
Que vale que sejas to fermosa Dama,
se tudo tens em ti to submergido?
A fresca flor, que coberto a rama,
a quem o tempo gasta sem ser vista,
nenhũa cousa presta haver nacido.
O ouro nada vale, se est escondido
em sua prpria mina,
e no se tira e afina;
nem a prola, em sua concha feia,
escondida na areia;
porque, sem a humana companhia
nenhũa cousa tem sua valia.

Assim, sua graa suma sobre-humana,
anglica figura grave e honesta,
o preo perde estando em ti escondida;
pois teu cabelo de ouro e branca testa
rostro belo, florida idade ufana,
gastas sem companhia em deserta vida.
ingrata, cruel, desconhecida!
O campo que merece,
ou que te agradece
gastares nele idade to sublime?
Ds-lhe o que no estima;
ds-lhe, com larga mo, o que me negas;
enfim, a luz lhe ds, a mim as trevas.

Olha que com pressa o tempo voa,
e como, com corrida pressurosa,
caladamente a fim tudo encaminha.
Procura de gozar de tua pessoa;
porque, despois de seca, fresca rosa
sem preo e sem valia fica a espinha;
confesso-te que a graa que ela tinha,
se o tempo quis tirar-lha,
o mesmo torna a dar-lha;
e, se perde a sazo que a enobrece,
ao outro ano reverdece.
Mas tua sazo fresca, se se perde,
no cuides que jamais se torna verde.

Se te fez Natureza to preclara,
se te dotou de graa e perfeio,
com ela no assanhes a Ventura;
olha que ests agora em tua sazo,
no sejas para ti tu mesma avara;
porque a fruita h-de colher-se se madura.
Se deixares murchar tua fermosura,
que agora mel despendes,
despois, se te arrependes,
o tempo, como corre rdea solta,
no torna mais a dar volta,
nem nosso estado humano to felice
que se renove assim como a Fenice.

Como posso esperar de ti piedade,
se tu, com teu intento desumano,
contigo mesma usando ests crueza?
Claro est de meu mal o desengano:
quem no tem pera si liberalidade
mal poder pera outrem ter largueza.
Mas contudo, essa roda de aspereza
espero que desande,
e algũa hora abrande;
porque, por tempo, as feras das montanhas
abrandam suas sanhas,
e o feroz cavalo altivo ufano,
por tempo se somete ao uso humano.

Se pera atormentar-me ests constante,
se pera crueldade tens tal posse,
a esperana em mim vive segura,
porque, por tempo, a poma se faz doce
e se quebra o forte diamante,
a gua branda cava a pedra dura.
Quiais permitir minha ventura
que algum tempo veja
o bem que alma deseja;
que no tempo brumal o cu espelhado
no est sempre ofuscado;
e s vezes o mar manso tem tormenta,
mas escassa, se o vento a fria assenta.

Se de qualquer trabalho, pouco ou muito,
pastora, galardo igual se espera,
e dar-se a quem o merece se costuma,
de meu amor constante e f sincera
bem posso com rezo esperar fruito.
Sem te ofender com isso em cousa alguma
a vida pois se gaste e se consuma
em to gentil demanda,
pois que Amor o manda;
e se nela quiser Fortuna ou Fado
que seja de ti amado,
no quero dele glria mais comprida.
E, quando no, morrer por ti vida.

Cano, perdida vs, mas mais perdido
est quem te oferece ao seco vento;
pois, pera sentir males tem sentido,
e pera mais lhe falta sentimento.
Se me queixo, ao doente concedido
queixar-se de seu mal, de seu tormento.
Portanto deixa-te ir e, donde fores,
pubrica meu tormento e mal de amores.

Luís Vaz de Camões
[CRECENDO VAI MEU MAL DE HORA EM HORA;]
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