I

Dia de inverno triste qual gemido.
Da solidão um vago sentido,
Como pedra em tumba ou rocha no mar,
Fica sobre mim em sombra a pairar.
Sinto-me sem mente, sem nervos, ao luto

De nuvens solenes, do seu peso em tudo
Privando a visão; e, ao meu ouvido,
Medo e desespero me traz o ruído
Da Cidade, esmagando em mim a liberdade.
A chuva horrível
Sempre repetida, de novo martela
Suas gotas frias na fria janela,
Com tal som que se adivinha o frio.
O mundo é sinistro, nocturno e antigo
E cansados passantes, em pisar contido
Mas apressado, caminham nas ruas sem vida
Em sua cor de chumbo amortecida.

As ruas são riachos e, perpetuado,
O som das águas nos muros, no telhado,
Escorrendo em ruas, valas, na vidraça
Que, húmido, entra nos quartos e passa.
Tudo é da chuva.
Tudo é humidade, fria escuridão,
Um sentimento de ermas coisas de então
Conferindo a tudo um ar amargurado;
E tudo o que ouvimos, sentimos e vemos
Num manto envolvido, como mascarado,
Em monotonia que nem concebemos.

Tudo nas casas, e das ruas chegando,
É um pisar encharcado de pés arrastando,
Um som de fatos molhados e um senso
De triste frieza, em si mesmo intenso.
Por janelas e portas, o vento em estalidos
Penetra, como uma lembrança de antigos
Tempos, a gelar meu corpo incomodamente
Reclinado e sofredor com a mente.

A vida nas ruas é triste e os ruídos
Mais monótonos que o habitual:
O trabalho perdeu a tensão usual,
Os pregões dos vendedores, como gemidos
Grotescos e tristes, quando os desfalecidos
Corações se gastam tentando
Falar normalmente, mesmo sangrando.
Os garotos sujos, que assim se deleitam,
Riem com os salpicos que as carroças deitam.

Os garotos da rua na lama a brincar
Fazem, de inveja, a alma ensombrar.
Casais, uns casados outros por casar,
Tendo em comum o nunca pensar
E a felicidade que p’ra mim não queria,
Pois antes a tumba do que essa alegria.
Passam na rua, contentes uns, outros não.
Não me sinto com eles em nada parecido.
Invejo-os — é certo — sem admiração
E também sem ódio, somente excluído.
Queria, como eles, ser feliz assim,
Mas essa alegria não queria p’ra mim.
A vida que levam para mim seria
Miséria, penúria, monotonia.

Ai dos que sonham! Ai de nós, poetas, que somos
Mais ou menos loucos, mais ou menos tontos!
Nisto é que consiste a vera alegria:
Em saber que tudo é só monotonia.
Felizes aqueles que vêem sem sofrer
O dia de hoje ao amanhã ceder,
Sendo hoje e amanhã, no seu entender,
Dias diferentes, pois diferentes dias,
Eles que me são (salvo no passar) os mesmos dias.

II

A visão que tenho deste dia frio,
A depressão funda em que o pensar extravio
Um símbolo e um resumo é, simplesmente,
Do que a minha vida é perpetuamente.

Em tristeza e dor, que fundo o pensamento!
Como a alma mergulha em desespero intenso!
Que desolado o peito emudecido
Das palavras que são como odor expelido
Da flor aberta da plena juventude!
Como fico encerrado na minha inquietude!
Como fico neste círculo confinado,
Círculo trágico de meu ser odiado!
Nem uma ambição ou desejo me chama —
 Humanitarismo, poder, riqueza ou fama.
Mas sinto-me cansado, frio, desiludido,
Tal como este dia. Tenho envelhecido
A ver os sonhos passar e desaparecer,
Deixando a lembrança pura, luzindo,
De algo que, como a luz, se foi extinguindo
Sem o vivo horror de se ver morrer.

É assim que vives, minh’alma impotente?
Como brilha triste o teu sol nascente!
Como ele pressagia as nuvens vindouras,
Asas da tormenta cujos tambores
Já se ouvem no dia que empalidece,
Difusos na distância que os amortece.

Tu não olhas de frente o mal e a morte,
Pobre alma em desespero da vida e da sorte!
Toda a forma de vida, tudo em ti tem sido
Só variantes da eterna desgraça.
Teus anos, teus lares têm constituído
Diferentes cenários duma mesma peça.
Não aprendeste a vida, a ela apegada
Temendo o outro lado da sua Máscara
(Temendo a noite severa da Morte),
Como se vida e mundo fossem mais que nada!
[…]


In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Fernando Pessoa
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