Mistério, o mistério aqui jaz
Na alegria e medo que traz.

Oh, que a morte maior deva ser
Que o Tempo e Espaço e o que há para ver,
Que a pensada Mudança seja mais profunda
E o Tempo, como uma imensa tumba,
Sinta em seu ventre a corrupção
      E se desfaça, qual podridão.

Pois que até as pedras da sepultura,
Tal como os ossos que elas encerram,
Morte terão.
            (Que cofre pode evitar
A corrupção? Ou, da podridão,
Que génio em caixa lacrada pode troçar?)

Sim, mesmo o mármore, como os corpos, morrerá,
Terá um fim. Quem passar pisará
      O pó da pedra tumular
         Sobre a cova colocada,
         Agora em pó como cada ossada.
      Pois à corrupção tudo passará,
      Estando a diferença só no passar:
      Umas coisas depressa e outras devagar.

      Sim, a dura pedra será desgastada,
      Ela que foi rocha criando o dia,
      Tão irreal como a vida passada.


      Só uma Sombra desconhecida, rente
      À porta do Tempo e do Espaço, por abrir,

      Com graça obscura e estranhamente
      Se mantém vigilante para nunca partir.
      Milhares de corações lutam p’lo bem
         Da humanidade, pobre e glacial;


1907

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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