por vezes a memória doutros dias chega-me de imagens fixas
mas se a vida germinasse dalgum cristal de prata
oculto nesta cabeça esculpida em pano erguendo-se
sob o peso de uma lua artificial... partiria à procura
do segredo eterno das pirâmides ou dessa revelação
ainda em suspensão no revelador dos nocturnos laboratórios

ali guardas a travessia das cidades do mundo
e o mistério desta boca para sempre muda estes ossos
que posso tocar sem me ferir na escuridão do olhar

no zénite da noite levantar-se-ia o eterno dedo
incendiando a leveza do papel mergulhado no fixador
imobilizaria o desejo
e todas as imagens se tornariam apenas resíduos
visões ainda longínquas dalguma catástrofe... os rostos
que na penumbra partilharam connosco a vida e
depois se ocultaram

começou a falhar-me a memória
já não sei se esta cabeça de pano existe ou ainda existirá
onde a contemplo... tenho medo
medo que me segrede quanta solidão está ainda intacta

 


In O Medo
Al Berto
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