Direi apenas as palavras de amor que te endereço 
envolvidas na nudez inicial... 
direi as que te envio pelo fio telefónico, 
as que te escrevo numa carta lacrada, 
as que guardas à chave na gaveta; 
as que a minha boca coloca nos teus olhos 
e as que transformam o teu riso em arbustos floridos. 
Direi somente as palavras vulgares e milenárias, 
viciadas pelos usos mais diversos, 
que têm mentido amores, construído amores,
 envenenado e sustentado amores... 
direi apenas essas — mais nenhumas! 
As que projectam luz directa nos teus passos 
para contar a nossa história, a pobre história 
de uma casa, uma cama, um orçamento, 
— a história tão banal mas espiada 
por entidades misteriosas e solenes 
que velam para que nada seja escrito. 
Direi apenas as palavras de paixão 
que te remeto em flechas aceradas
por sobre a multidão espavorida; 
as que te arrancam de um corredor sombrio 
para outro que os meus dedos iluminam; 
as que fecham o alçapão das tuas mágoas 
e rasgam a parede de silêncio; 
as que telefono com a cabina aberta 
cuspindo na ironia dos que passam; 
as que te oferecem um galhardete colorido
e te auxiliam a patinar sorrindo
sobre a endurecida maldição antiga; 
as que destroem o veneno da tristeza
e autenticam a tua marcha musculada;
direi apenas essas… mais nenhumas!
As que arborizam o interior da solidão
e as que te escrevo com um dedo nas espáduas.

1950

In O PÊNDULO AFECTIVO - ANTOLOGIA POÉTICA:1950-1990 , Edições Afrontamento, 1991
Egito Gonçalves
DIREI APENAS ESSAS...
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