[1]
Oh, o mar!
[ … …]
Sempre a gemer, sempre a chorar,
Ora a subir e logo a rasar
A praia.
O que guardas em desertas grutas?
Que costas banham as tuas águas?
O que sobre isso podes contar
Tu, que és de tantos a sepultura?
Diz, ó mar!

Eu te saúdo, ó mar!
O que, em força, te pode exceder?
Deixa rugir, deixa atroar
Sobre a costa orlada de seixos.
Eu te saúdo, ó mar!
Vem fustigar
Os penhascos altivos,
Arrebata os homens no convés apinhados,
Escuta nas rochas futuros naufragados,
Eu te saúdo, ó mar!

[2]

Oh, o mar!
Na sua fúria e em seu fulgor,
No movimento e em seu torpor,
E no seu rir, no seu chorar,
(. . .)
Eu te saúdo, ó mar!
Como essa fúria me vem possuir,
Faz atroar e faz rugir
Sobre a praia batida, a tremer,
Faz avançar, faz embater
Sobre o convés vergando, apinhado;
Ribomba e esmaga
Sobre o horror dos seus naufragados.
Tivesse eu a pontaria constante do mar
Para, com raiva e poder, o mundo despedaçar.

Com fúria crescente e sonora bravura
Como se, com força indomável, fosse esmagar a loucura.

Suave é o mar!
Que brando é em plena alegria!
Com as águas lentamente quebrando,
Com a vaga ondeando, ondeando,

[… …]

[3]

Salve
Voz de todas as vozes, vem perto
Enquanto jubila o demónio
Ouvindo o teu lamento no dia incerto.

[4]

Eu te saúdo, ó mar!
O que, em força, te vai exceder?
Deixa rugir, deixa atroar
Sobre a praia batida, a tremer;
Elevando-se e do alto avançando,
Bate nas rochas com a água rolando
E as ondas esmagam, em horror, os barcos
Que se despedaçam
Contra as rochas e nos penhascos
Em raiva sem fim e com tremendo embate;
Vede: ele banha o convés a ranger
Do que outrora era um barco; agora destroços
E a gente é levada por turbilhões impetuosos
Enquanto o rugido lhe acresce o poder
Tudo estilhaçando pela noite sem tempo
Com estampido e choque tremendo!
Risos e falaças em seu fulgor,
Como me invade o teu furor!
Eu te saúdo, ó mar!

[ 5]

Lindo mar
[… …]
Sempre a mover-se, a rir, a tocar
Nunca mostrando contenção
Na música do seu versejar
E no murmúrio da ondulação.
Todas as águas, leve, aspergindo
Tilintando, lentamente tinindo
Nunca escravo da viração,
No seu assobio e no seu cantar
Sem querer ser cruel ou assustar
No murmúrio da ondulação.
Sem ser orgulhoso nem se ostentando,
De vãos elogios nunca se gabando
No murmúrio da ondulação.
[ … …]
Como eu te amo, liberto e belo,
Lindo mar!
 
[6]

Pudesse eu traduzir teu poder
Em palavras exactas, com saber,
E acho que a terra sentia um golpe terrível,
Mas o teu som demasiado temível

Não está em palavras, mas só em lamentos,
E o homem ignora o ruído dos teus sofrimentos.
Pois fosse o teu ódio em palavras tecido
E o mundo destruiria o sol enfraquecido.

[7]

Mas, ah, é vão meu poder,
Mais fraco parece que a chuva
Que se segue à tua retirada;
Deixa que eu tenha só o poder
De gozar alegre a hora que passa
Sem saber do peito a última pancada.
[… …]


In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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