Na nocturna lonjura pastoril
À minha sobrevinda , tinha 
A flauta donde ermo pastor destila
Seu triste andar, tão simples que é subtil...

Recende a flauta até ao horizonte
Imperceptível, tímido, da hora...
E onde ao longe é uma mera sombra o monte
A alma do som da flauta entre águas mora...
Oculta voz doutra flauta vibra e afila
As mãos da noite que entra e se demora...
Quem sabe donde o sonho meu se exila,
Quem sabe quem dentro em meu sonho chora?

Desabrocham lírios pelos vales
Não os vejo... Há nocturnos de passadas
Pelos desvios vagos das quebradas...
Por mais que chores flauta, que te cales
Esta ideia sabe-me a um tinir de espadas...
Tanto para o meu tédio não resvales!...
Passagem longe de um perfume de fadas. .
Quem sabe quem dentro em meu sonho agrada
À tua voz que o suporta pelos vales?

Na nocturna lonjura pastoril e aflita
Do íntimo segredo esparso pela hora
Auréola ténue do som que medita
Sobrevinda a mim vir, a tua flauta chora...

26 - 7 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar