Pescador do mar alto,
Deus te dê boa pesca!
Tu estás com tua tarefa
E eu a tudo falto...
Pescador
O que és tu para seres mais feliz do que eu?

Tens a alma guardada
No cofre da inconsciência...
E a lúcida inocência
Que vem de não ser nada...
Teu caminho na vida
É claro e a estrada que tu segues definida.

Vais só até à morte...
Corres os riscos teus
Menos fiado em Deus
Do que na tua sorte...
Esta é a verdade, O resto
Não importa... Eu porque é que te não detesto?

Meu Deus! ter-te por alma!
Não ser inteiramente
Mais que tu realmente.
Que benévola calma
Para com o meu ser...
Assim... Olho-te e não sei o que eu hei-de dizer...

Teu barco alça a vela...
Segues pelo mar fora..
Deus te dê boa hora
E uma amiga estrela!
Sabe sempre ficar
Ignorante, audaz, livre, alegre e ligeiro como o mar

Olha. Eu tenho a alma alta
E o pensamento atento...
Sofro do pensamento
E a alma em falta
Por isso invejo o teu
Sono da vida activa sob o infinito céu.

Ah, como o mar te mete
O ar claro nos pulmões,
Às minhas ilusões,
Ó meu El, promete
Não seres mais do que és
E eu poderia, cantando-te, sentir-me-te uma vez.

24 - 10 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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