[I]

Toma-me em teus braços, mãe, qualquer que sejas.
Toma-me em teus braços e criança me faz assim.
Uma tristeza imensa sufoca toda a alegria
Que, muita ou pouca súibito nasça em mim.

Toma-me em teus braços e embala-me para dormir.
Embala-me para dormir até perder todo o sentido.
E ouça, como quem dorme numa casa junto ao mar,
Um vento erguer-se, como ser do fundo surgido,
Cessando quando adormeço, como uma vida a acabar.

II.

Tudo o que desejei fazer,nada foi feito.
Até o que quero sentir dentro de mim me desdiz.
Fico cansado, sombriamente cansado, do sol quieto e constante,
E inquieto face à inquietude de um mar mais feliz.

Oh, queria um barco para crer que nele partiria
Do mundo, além dos muros das minhas sensações, tornando-me
Uma ausência flutuante de meu ser exausto, rejeitada aflição
Perseguindo-me como o rasto de um navio iluminando
A consciência de ter deixado cair a vida como candeeiro no chão.

III.
 
Mãe, meu rosto definha e sofro mágoas que me esqueço de saber.
Sofro coisas que me esqueço de sentir e que nem sei pensar.
Invejo, mãe, a figura do homem possante ao leme
Que cumpre o dever nas tempestades e tem na alma o sal do mar.

Meu coração perdeu uma vida cheia de riscos e êxitos.
Meus pensamentos, dei-os de presente a uma vida que não pude viver.
Ensina-me a perdoar em mim a minha própria vida.
Ensina-me a amar a vida, ao menos sem a morte temer,
E tudo o que me ensinas, como a dádiva de um beijo mudo seja tida.

IV

Embala-me nos teus braços, mãe. Já é noite.
Há um certo movimento perpétuo, como um final de dor,
No teu embalar-me assim, a partir de agora para a luz
Que o candeeiro reflecte em teu embalo, feito do mesmo fulgor.

Deixa que eu durma, durma, num sono fora do Tempo.
Deixa-me à deriva no espaço como um barco, da costa distante.
Sejam teus braços como terra, ou dia, ou céu para mim,
Como o perdão de um crime, poisem teus lábios na testa um instante.
Embala-me até perder meu ser, ó mãe, e continua assim.

V.

Minha dor excede o poder de senti-la. Dormente, desfaleço.
Revolta-me não ter vivido a vida, mas tudo sonhos, sonhos somente,
Tenho a alma envenenada por uma tara antiga e misteriosa
E ora que deixaste de embalar-me, a luz brilha em cheio à minha frente
Esconde-me dessa luz, mãe, que parece fitar-me.

Esconde-me, para em teu seio e na noite me apagares.
Vê! O escuro dos mares eternos cresce lá fora!
Mãe, quem esperamos que regresse de além dos mares?
É por alguém no alto mar que a nossa luz se acende agora?

VI.

O vento ergue-se, ergue-se o vento. Algo ficou mais frio e autêntico.
Algo da vida e do seu mistério dentro da sala vem rastejar.
Mãe, tapa as frinchas da janela, fecha bem a porta.
Nunca se sabe que horror, vindo da Noite, pode assomar.

Não sabemos por quem esperamos. Pode ser pior que as trevas.
Pode ser informe no pensamento e terrível como Deus, se existe...
Mãe, novos sons rastejam como cobras no escuro. Vem escutar!
É o vento que temes? É o mar que avistas?
Mãe, faz-me adormecer, antes que possa ouvir ou olhar.

VII.

Quando suportarei, Mãe, este medo e esta angústia,
Esta dor de algo perdido ou coisa a ser encontrada,
Que se enrola como cobra impossível, viscosa, ao coração
E à noite, mãe, a noite sem existência, ilimitada!...

Põe os teus braços à minha volta, tão juntos e tão apertados
Que cubram os olhos da fantasia e tapem o ouvido do pensamento.
Mãe, não vejamos se a noite passa ou se permanece.
Não pensemos nem sejamos... Que a vida seja apenas passado.
Que a nossa morte total, infinita, seja o dia e o fim do tormento.


In POESIA INGLESA II , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 2000
Fernando Pessoa
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