Há uma música do povo, 
Nem sei dizer se é um fado... 
Que ouvindo-a há um ritmo novo 
No ser que tenho guardado... 

Ouvindo-a sou quem seria 
Se desejar fosse ser... 
É uma simples melodia 
Das que se aprendem a viver... 

E ouço-a embalado e sozinho. 
E essa mesmo que eu quis... 
Perdi a fé e o caminho... 
Quem não fui é que é feliz. 

Mas é tão consoladora 
A vaga e triste canção... 
Que a minha alma já não chora 
Nem eu tenho coração... 
 
Sou uma emoção estrangeira, 
Um eco de sonho ido... 
Canto de qualquer maneira 
E acabo com um sentido!  
9 - 11 - 1928

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar