Os tempos não vão bons para nós, os mortos. 
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se). 
As palavras esmagam-se entre o silêncio 
que as cerca e o silêncio que transportam. 

É pelo hálito que te conheço no entanto 
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos 
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos 
fala-se de mais são tempos de poucas palavras. 

Falo contigo de mais assim me calo e porque 
te pertence esta gramática assim te falta 
e eis por que não temos nada a perder e por que é 
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios. 


In POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2001
Manuel António Pina
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