Com teu gesto pintado e exagerado
E o teu prolixo modo de sorrir
E o teu olhar, sob o torpor copado
Da expressão, veludíneo a dirigir

Tu nada sabes do essencial pecado
E uma inocência □ vem luzir
Como uma luz de azeite em descampado
No teu rosto ensinado a conseguir.

Porque a análise é a vera perversão...
O único vício é rebuscar a alma,
Dor a dor, sensação a sensação...

Tu, a exterior, que mal tens na alma oca?
Nada... Ai de nós de quem a vida é calma.
E quer fora e quer por dentro... (Abre a tua boca!)

8 - 11 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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