falo-te do último poema
essa dolorosa construção de falhas de ossos
de pedras em forma de sanguíneas rosáceas
atravessadas por veias de cristal e
lume de secretos minerais

falo-te dos medrosos dias coalhados no cérebro
do homem que lúcido espia
através de húmida lente o pântano
e a noite de minúsculas nocivas faunas urbanas

o poema organiza-se
a partir de imensas constelações subterrâneas
ilegíveis fragmentos de terra e de bolor
acumulados a outros fragmentos quiasmas
seculares espelhos onde pernoitam máscaras
sob aquedutos de luz e de esperma
e o sonho revela tentáculos imemoriais
abismos teias ramificações estelares
pálpebras de sílabas sibilando algures
não pares
não pares nunca mesmo na morte
não pares quando ouvires a bomba cantar
a terrível alegria do mundo

 


In O Medo
Al Berto
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