Cansado até dos Deuses que não são...
Ideais, sonhos... Como o sol é real
E na objectiva cousa universal
Não está o meu coração...
Eu ergo a mão,

Olho-a de mim, e o que ela é não sou eu.
Entre mim e o que sou há a escuridão.
Mas o que são a isto a terra e o céu?

Houvesse ao menos, visto que a verdade
É falsa, qualquer cousa verdadeira
De outra maneira
Que a impossível certeza ou realidade.

Houvesse ao menos, sob o sol do mundo,
Qualquer postiça realidade não
O eterno abismo sem fundo,
Crível talvez, mas tendo coração.

Mas não há nada, salvo tudo sem mim.

Crível por fora da razão, mas sem
Que a razão acordasse e visse bem;
Real com coração, inda que □


□ espaço deixado em branco pelo autor

10 - 7 - 1920

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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