Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
      E as folhas não falavam
      De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
      Do que as folhas das árvores
      Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
      E não querer mais vida
      Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
      Nos saúda a grandeza
      Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
      Que fará na alta praia
      Em que o mar é o Tempo?

8 - 10 - 1914

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
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