Este nosso não ser mais do que a lousa
Para o tempo escrever cousas que apaga,
Este ter de fazer alguma cousa
Este ter uma alma que não ousa,
Que quase-vive que metade-afaga
O mundo, e que no fim de tudo, vaga
Nem □ nem repousa.

É isto a vida? Será sorte o fado
Que eternamente o espírito enganado
Acorde de si, e eternamente seja
A sua própria ilusão? O estrado
Donde a consciência fala □


[1910]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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