Bateram na cabeça de metade do silêncio
Os botões de calças das Ruas Estreitas roeram as unhas dos pés...
O meu amigo Fernando António Nogueira Pessoa sou eu. E vence-o
Uma frase bela, como esta «As desinências dos dez»

Se à palavra Olga tirassem o 1 e juntassem um s ficaria Ogas
Se o mar não tivesse praias, as nuvens brincavam mais...
O incenso que as Luas Mortas desejam é o remo que tem que dar para 14 pirogas...
(Ora até que enfim cá estão as pirogas dos canibais!)

No país dos galhos de lábios pintados os lenços é que acenam aos homens...
Nos jardins há geralmente flores... Se as não há devia havê-las.
As velas das naus são primas das canelas dos lobisomens
E não são só as naus, mas também os castiçais que têm velas.

Caíram pela escada abaixo todas as minhas ascensões
Lei das compensações... Os arquitectos tossiram
Quantos fantasmas são apenas asas de corujões!
Os lobos riram, e as lobas riram, e os lobinhos riram, e as lobinhas riram...

Farto de chamar nomes à minha ideia de várias cousas
Assoei-me e abotoei todos os botões do meu sorriso...
Descobri a América... (É uma mulher com duas bocas) Que curiosas
Que são aquelas cousas com que se tapam as garrafas e a que a gente chama rolhas quando é preciso!

Todos os tanques se fartaram de não servir senão para tanques.
Tornaram-se criados de café e irritaram-se com a Gorjeta...
Palavra de honra que me não importo que os desanques.
Uma prima da minha avó paterna (já morreu) tinha uma criada preta.

E visto que isto (ó Cristo) tem de parar em qualquer ponto... Ah a tinta
Que falha na minha caneta Waterman (comprei-a com dinheiro que não pedi emprestado)!
O meu estar a escrever estes versos é uma mulher muito fina que se pinta,
Foi por andar num país que nunca existiu que fiquei assim constipado.

Ficaram para outro dia as conferências dos cisnes sobre a questão de Ambaca
Nunca há uma greve que não se diga que é instigada por monárquicos... .
Quero escrever mais... e cada meu desejo de o fazer é um Cardeal Patriarca
Pois sim... Mas a falta de tempo e o acabar aqui o papel são os seus superiores hierárquicos...


[1914]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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