Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. 
Não florescem no inverno os arvoredos,
       Nem pela primavera
       Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
       Com mais sossego amemos
       A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
       Não puxemos a voz
       Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
       (Não para mais nos serve
       A negra ida do Sol) —

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
       Agora duas vezes
       Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
       E sob uma outra espécie
       De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
       Como quem compõe roupas
       O outrora componhamos


Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
       Naquilo que já fomos,
       E há só noite lá fora.

 

30 - 7 - 1914

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
[CADA COISA A SEU TEMPO TEM SEU TEMPO. ]
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