Irei mais longe que os navegadores.
Meu ‘spírito estandarte
De terras de outros mares e maiores
Fará parte.

Atmosfera das almas do futuro,
Pairante imperador,
Tornarei do meu sangue o ainda obscuro
Porvir maior.

Possuirei a esfinges e a tronos
D’eu reino de Além,
Senhor dos Mestres, Dono-Rei dos donos,
Alma que tem

No seu âmbito absurdo e desmedido
Todo o mundo por vir,
Que olhará para o Deus de ela-ter-sido
Sem o seguir,

Impaciente de ser pouco e tarde,
Cinza do que já fui.
Ó meu imperial coração, arde,
Impera, flui,

Ocupa a céu e astros o Destino,
Pertence a imperial!
Feche depois meus olhos o divino
Gesto fatal!

Terei deixado o meu inteiro ser
Por toda a terra
Nada terá morrido em meu morrer.

8 - 8 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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