Como que dum sobrescrito que rasgo e abro
      Tiro uma carta
Da minha sensação monótona desta tarde
      Tiro a alma farta.

E eu que nunca vi antes uma carta longa, e canso
      De pensar em lê-la...
Ponho-me a esquecer-me do que sinto... e pergunto
      A tudo se [.]

E tudo é apenas uma sensação qualquer, suponho
      Que doentia...
Uma mistura confusa de atenção e sonho
      Sem alegria.

E olho nas mãos como uma carta qualquer
      Que cansará ler
Minhas sensações... E odio a vida
      Mesmo sem descrer.

17 - 11 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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