O som do relógio
Tem a alma por fora,
É o pulso do ’spaço,
Avisa e ignora.

Não sei que distância
Vai de som a som
Na fiel ressonância
Do seu ritmo bom.

Mas oiço de noite
A sua presença
Sem ter onde acoite
Meu ser sem ser.

É o tempo parado
Falando a passar
Tardando, tardando
Tenteando tardar
Tanta tentativa
De tudo [...]

Na noite perdida
No meio do nada
Tem voz tão crescida
Que fala a [...]

Parece dizer
Sempre a mesma coisa
Como o que se senta
E se não repousa.

26 - 6 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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