Era um major reformado
Que tinha aquele passado
Que os majores todos têm
Quando a reforma lhes vem.

Burocrata de combate,
Viveu como um bonifrate
O nada p'ra que nasceu.
Deu-me o sorriso, e eu
Encontrando-o não podia
Fingir-me que não sorria.

Dizia ele: «O senhor,
Que é poeta, pensador,
Nunca pode calcular
Como se pode passar
Uma vida sem pensar
Como esta que está vivida
E teve que ser mesquinha…
Nunca fiz nada da vida…»

Pois sim, pois sim,
E eu da minha?
(Eu nem posso, o que é pior,
Ser reformado em major).

1 - 11 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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