No país das lagoas a tarde
É uma lagoa também...
O céu em água de fogo arde
E a sombra vem
Sem rasto, ou □ ou alarde
Como as sombras que as águas têm.

No país das lagoas doente
Passei, e o coração
Ficou-me entre a extensão silente
Da solidão,
Como uma alga ou um reflexo — hálito rente
À consciência exterior da sensação.

No país das lagoas, paisagem
Que faz a alma parar
De uma angústia sem nome e sem fim — pajem
De não poder pensar —
No país das lagoas passei como uma aragem
Por sobre as lagoas doentes, à procura do mar.


□ espaço deixado em branco pelo autor

28 - 2 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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