Quando, cheio do próprio dó,
No meio do ermo e horrível universo,
     Cada um conhece que ‘stá só
E que quanto mais saúda os céus e o pó
      Mais somente em si mesmo está imerso;

Quando, na fria e alheia solidão
Que é tudo, quando o sente o coração,
Quando são mortos os que nos amaram
E só os que nos estremam nos finaram,
Para fazer mais fria e mais sozinha
      A casa sem raiz que nos deixaram
      E a abandonada vinha...

Então, quando uma nova consciência,
Um pavor louco da infinita treva,
      Nos enche a inexistência
E uma névoa do além se eleva…

Então, Senhor, erguendo o olhar sem rumo,
Surge da inerte noite, como um dia

Teu vulto misericordioso,
Teu gesto paternal e cuidadoso,
Tua tristeza e alegria...

27 - 1 - 1928

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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