Que suavemente!,
Como se, estando eu doente,
Me doesse de bem sentir o mundo
Ruidoso e indiferente,
Vêm estes pregões da rua,
Com uma claridade nua,
Do fundo
De ali onde está toda a gente!

Inerte jazo,
Sem dormir, cansado
De todo o atraso
Do meu propósito enganado.
Jazo, cansado e errado.

Jazo, mas vem de lá de fora,
Das que trazem canastras cheias,
Das que vão, sem pensar nem meias,
Gritos que são como uma aurora.
Não sei que vendem nem quem são,
Mas cai na minha solidão
Como um orvalho de verdade
Aquela absurda suavidade
De saber que as que vendem vão
Vendendo na realidade.

2 - 12 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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