Este poeta está 
Do outro lado do mar 
Mas reconheço a sua voz há muitos anos 
E digo ao silêncio os seus versos devagar 

Relembrando 
O antigo jovem tempo tempo quando 
Pelos sombrios corredores da casa antiga 
Nas solenes penumbras do silêncio 
Eu recitava 
«As três mulheres do sabonete Araxá» 
E minha avó se espantava 

Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó 
Quando em manhãs intactas e perdidas 
No quarto já então pleno de futura 
Saudade 
Eu lia 
A canção do «Trem de ferro» 
E o «Poema do beco» 

Tempo antigo lembrança demorada 
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira 
Quando 
Me sentava nos bancos pintados de fresco 
E no Junho inquieto e transparente 
As três mulheres do sabonete Araxá 
Me acompanhavam 
Tão visíveis 
Que um eléctrico amarelo as decepava. 

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa 
Nos passeados campos da minha juventude 
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro 
E foram parte do tempo respirado 

In Geografia
Sophia de Mello Breyner Andresen
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