Vou com um passo como de ir parar
      Pela rua vazia
Nem sinto como um mal ou mal-estar
      A vaga chuva fria...
 
Vou pela noite da indistinta rua
      Alheio a andar e a ser
E a chuva alheia em minha face mia
      Orvalha de esquecer...

Sim, tudo esqueço. Pela noite sou
      Noite também
E vagaroso e □ vou,
      Fantasma de ninguém.

No vácuo que se forma de eu ser eu
      E da noite ser triste,
Meu ser existe sem que seja meu
      E anónimo persiste...

Qual é o instinto que fica esquecido
      Entre o passeio e a rua?
Vou sob a chuva, anónimo e diluído,
      E tenho a face nua.

14 - 2 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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