Tragam-me esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê, mas já basta…
Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje?
Viver amanhã por ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?
Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
E agora aparece o eléctrico — o de que eu estou à espera —
Antes fosse outro… Ter de subir já!
Ninguém me obriga, mas deixá-lo passar porquê?
Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida…
Que náusea no estômago real que é a alma consciente!
Que sono bom o ser outra pessoa qualquer…
Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios…
Não, não compreendo nada…
Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida…
28 - 5 - 1930

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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