Vou com um passo como de ir parar
Pela rua vazia
Nem sinto como um mal ou mal-estar
A vaga chuva fria...
 
Vou pela noite da indistinta rua
Alheio a andar e a ser
E a chuva alheia em minha face mia
Orvalha de esquecer...

Sim, tudo esqueço. Pela noite sou
Noite também
E vagaroso e □ vou,
Fantasma de ninguém.

No vácuo que se forma de eu ser eu
E da noite ser triste,
Meu ser existe sem que seja meu
E anónimo persiste...

Qual é o instinto que fica esquecido
Entre o passeio e a rua?
Vou sob a chuva, anónimo e diluído,
E tenho a face nua.

5 - 3 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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