MORTE DE D. TELO QUE MATARAM NA NDIA

Saiam desta alma triste e magoada
palavras magoadas de tristeza,
e seja ao mundo a causa declarada.

Saia do peito a voz, com que a graveza
sojiga, doma, e as gentes move tanto,
por mais e mais que tenham de dureza.

E vs, meus olhos tristes, entretanto
em lgrimas esta alma derretida
chorai, que amargo choro o meu canto.

Quanto de mim a causa foi sentida,
seja de vs chorada; e juntamente
choremos ũa morte e ũa vida.

A bondade choremos inocente,
cortada em flor, que pela acerba morte
nos foi arrebatada de entre a gente

e aquela imensa dor e dura sorte
da magoada me, cuja alma triste
tambm cortada foi com agudo corte.

esprito gentil, que ao Cu subiste,
porque enjeitaste a minha companhia,
e acompanhar-te eu no consentiste?

Este o canto herico e de alegria,
que eu j em teu louvor aparelhava;
como o tornou a morte em elegia?

Esta a esperana, que nos dava
de ti tua tenra e alegre mocidade,
de quem to grandes cousas se esperava?

O Himeneu, que em mais perfeita idade
com honras mil te andava aparelhando
a me de quem no houveste piedade,

que agora, como Hcuba, anda bramando,
buscando em vo a casa em toda a parte,
«Amado filho meu – por ti bradando -

quem me vedou os olhos teus cerrar-te
que em to amarga e triste despedida
pudera esta alma minha acompanhar-te?

Quem te privou da cara e doce vida,
meu filho to fermoso e mal logrado,
dous coraes passou ũa s ferida.

Em terra de desterro, ai filho amado,
deixando-me sem ti desemparada,
quiseste ser de estranhos sepultado.

Se ias para fazer to gro jornada,
no levaras em tua companhia
esta msera me desconsolada?

Qui que algum socorro te seria;
que vendo vir a espada em alto erguida,
filho, cum grito meu te avisaria.

Ou recebera o golpe nesta vida,
metendo-me no meio, e tu viveras;
fartara de meu sangue esse homicida.

Ai filho, meu amor, que tu s eras
quem com tua vida alegre algum descanso
a meu viver cansado dar puderas.

E tu sers tambm quem manso a manso
me acabars a vida, que eu queria
sem ti ver acabada um s lano.

homens que passais por vossa via
detende o passo, olhai, dir-me-eis se vistes
dores iguais s minhas nalgum dia.

E vs tambm, mulheres, que paristes,
ajudai-me a chorar, porque em mal tanto
no satisfazem s meus olhos tristes.»

Assi com grave dor de canto a canto
at nos coraes de mor dureza
soa ũa voz confusa, um amargo pranto.

tu, honra e primor da Natureza,
ilustre e fermosssima Maria,
no trates mal, Senhora, tal beleza.

Pois s custdia s, donde alegria
defunta, e tal chorada em dia amargo
ressurgir em outro alegre dia.

Que a ti deu o movedor do mundo o cargo
de alegrares a me chorosa e triste,
que alegre viver por tempo largo.

Posto que a dor do irmo muito sentiste,
no destruas as lindas tranas belas,
pois o remdio nisso no consiste.

No trates mal as ntidas estrelas
dos olhos teus com lgrimas ardentes,
pois tm mais resplendor que todas elas.

No ofendas as faces refulgentes,
obra de Deus, com mo despiedosa,
da ptria honra, e louvor das gentes.

Mas vai: com doce voz, branda e amorosa
consola a triste me desconsolada
com tua vista alegre, e to fermosa.

Promete-lhe que em si ressuscitada
ver sua alegria j perdida,
de todos to sentida e to chorada.

Pois teu remdio est s em sua vida,
que haja de ti materna piedade,
no d tanto lugar dor crecida.

Bem se permite fraca humanidade
por filho tal e tanto tempo ausente
um moderado pranto, uma saudade.

Mas to contnua dor, que espante a gente,
e pe em tal extremo a vida amada,
nem o mundo o quer, nem Deus no o consente.

No foi a morte de Heitor sempre chorada
da triste me, que, alm de filho amado,
era por ele s Tria amparada?

Mas j despois de morto, e arrastado
com grego aplauso, vozes e alarido,
o corpo houve s mos desconjuntado,

Perdida a cor, o colo recado,
no parecia Heitor, que dantes era,
de p, de sangue; e de suor tingido.

Com seus olhos lavou-lhe a chaga fera;
com suas mos o rosto lhe alimpava
sem alma e sangue, j de cor de cera.

Mas vendo enfim quo pouco aproveitava
seu choro, e nem por mais que em vo bradando
chamava Heitor, Heitor ressuscitava;

de lgrimas os olhos enxugando,
desenganada j do filho amado,
se foi coa amada filha consolando.

Nem sempre o fero Aquiles foi chorado
de Thtis sua me, do branco coro,
prncipe grego to assinalado.

Tambm pagou morte o antigo foro,
e deusa no valeu ser prevenida,
nem suspiros valeram, nem seu choro.

Tambm a este acabou mortal ferida,
sendo meio imortal, e filho amado
de deusa de Nereu to querida.

Nas guas de Aqueronte foi banhado,
por que em batalhas, como o fero Marte,
do ferro no pudesse ser cortado.

Mas a gua no chegou quela parte,
que esquadrinhou a seta aguda e porte,
que contra ela no vale engenho e arte.

Choraram as gregas gentes sua morte,
os focas e delfins tambm choraram,
chorou do grande Nereu toda a corte.

Tantas lgrimas tristes derramaram,
tanto chorou a me, que muito o amava,
que o Xanto e o Simois acrescentaram.

Mas vendo que o chorar no aproveitava,
e que era dor perdida e desatino,
os seus fermosos olhos alimpava:

E com alegre rosto de ar benino,
o cu, a terra, o mar, tudo alegrando,
e os cidados do Reino cristalino,

os seus verdes cabelos espalhando
ao vento, de mil Ninfas rodeada,
tornando a vista atrs de quando em quando,

de Pausilipo e Ortia acompanhada,
de Dris, Melanipe e de Melanto,
se foi para Nereu consolada.

Deixai pois j, Senhora, o amargo pranto,
a pena, a dor, o mal que tanto crece,
e dai lugar ao meu inculto canto.

Com gro dificuldade se oferece
a grandes desventuras, tais como esta:
a dar-lhe iguais palavras, quais merece.

Portanto eu, Senhora, agora nesta
no as hei-de buscar por consolar-te,
que aos tristes consolar s a razo presta.

Tambm sero perdidas nesta parte
consolaes que, em choro de amargura
fora no tm, por mais que tenham de arte.

Se as lgrimas no vence a razo pura,
Fortuna sempre a outras acrescenta;
guarde-te Deus de mor desaventura.

No digo que a alma est de mgoa isenta,
porque humano sentir; mas fraqueza
no sofrer o que Deus nos apresenta.

No este mundo a nossa natureza:
estrada si, por onde caminhamos,
pretendendo chegar Suma Alteza.

Neste caminho um passo estreito achamos:
Morte se chama, horrenda e desabrida;
dvida, que Ado fez, e ns pagamos.

A todos comum esta partida;
quem morre, no morreu, partiu primeiro,
e o que h, depois da morte, eterna vida.

Todo animal que nace est foreiro
a passar este passo estreito tanto:
todos l havemos de ir por derradeiro.

Deixa, Senhora, deixa o amargo pranto;
teu filho est no Cu resplandecente,
j entre os cidados do Coro santo.

Nossas memrias tristes no as sente;
j livre e de teatro est olhando
com olhos imortais a imortal gente,

da viso beatfica gozando,
sem medo ou sobressalto de perd-la,
o mundo e seus afagos desprezando.

Dali contempla de uma e de outra estrela,
ou fixa e errante, o curso e movimento,
tendo, sem se mover, os ps sobre ela.

Veloz, qual o ligeiro pensamento,
passa de plo a plo, e o Cu conhece
que seu caminho faz com passo lento.

E porque o mar contnuo mngua e crece
compr'ende; e a quinta-essncia pura e neta;
e com que luz a Lũa resplandece.

Nem nos espanta no ar qualquer cometa;
os pontos sabe de um e de outro sino,
por onde faz seu curso o gro Planeta.

Um Anjo novo tens, santo e benino.
Vive, Senhora, alegre e consolada,
que por ti roga ao Padre de contino.

alma pura em alto alevantada,
que l ests nesse Cu luzente e claro,
desta mortal priso j desatada.

Senhor meu Dom Telo, amigo caro
que do terreno sol, onde viveste,
te arrebatou sem tempo o tempo avaro.

Se, ao passar do Lete, no perdeste
a memria de mim, que tanto te amo,
e por ntimo amigo me tiveste,

com ateno escuta o meu reclamo:
no desprezes de ouvir l dessa altura
a baixa e rouca voz, com que te chamo.

Que quando concedido da Ventura
me for o que eu por ti agora peo,
no borrar o teu nome a lama escura.

Entanto as baixas rimas te ofereo
em penhor da vontade e amor profundo,
at cumprir o que ora aqui professo.

Que ento te contar por todo o mundo,
com lnguas mil a fama soberana,
e ocupar teu nome sem segundo
do ptrio Tejo alm da Taprobana.

 

Luís Vaz de Camões
[SAIAM DESTA ALMA TRISTE E MAGOADA]
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