Sento-me então a olhar o rio, 
os meus pensamentos formam cardumes 
que contra a corrente se insurgem 
mas as águas são inexoráveis; 
olhando-as, a superfície cintila, 
propaga-se como se fossem notas 
de um piano na garupa de um cavalo 
que se dirige para o mar. 
O rio bebe as cores da cidade, 
sobre elas eu abro o coração 
em que te encontras, as colinas 
emolduram as raízes que à terra
nos ligam. Para os meus olhos 
é um momento de pausa: as coisas 
que interrogo não resistem à maré,
não dão respostas; perdem-se no mar 
como tudo o que a memória não reteve. 
Mas este rio 
já foi longamente folheado, nele 
escrevemos o romance de amor 
que nos deu uma casa, 
nos cortou o cabelo, nos afastou 
das rugas, nos entregou o azul 
(tecido, nuvem, divã, janela...) 
o voo das artérias, lugar do corpo, 
portas que nos amanhecem, espelho 
onde fazemos fluir a vida. Acordes 
da guitarra que forja o horizonte, 
que guia o sinuoso voo das gaivotas 
e acaricia a pele que rasga atalhos 
no interior dos sonhos. Estarei 
vivo enquanto me guardar 
teu coração. E no seu lucilar, 
esta água imita o fogo 
que devora sombras e escombros, 
libertando a asa que no sangue 
respira. A foz está próxima, 
mas o horizonte é o teu olhar. 
No leitor do carro, a guitarra flexível 
sublinha o que divago; os acordes 
disparam, 
encontram-me na trajectória do seu alvo. 

1997

In A FERIDA AMÁVEL , Campo das Letras, 2000
Egito Gonçalves
« Voltar