Falhei. Os astros seguem seu caminho.
Minha alma, outrora um universo meu,
É, hoje, sei, um lúgubre escaninho
De consciência sob a morte e o céu.

Falhei. Quem sou vive só de supô-lo.
O que tive por meu ou por haver
Fica sempre entre um pólo e o outro pólo
Do que me nunca há-de pertencer.

Falhei. Enfim! Consegui ser quem sou,
O que é já nada, como a lenha velha
Onde, pois não valho senão quanto dou,
Pegarei facilmente uma centelha.

1 - 11 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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