Não sei que dor quebranta
O meu coração doente,
Que um pouco dói, e encanta
Um pouco, e mal se sente.

Não sei se é como a leve
Dor de mortal ferida,
Que subtil gume obteve
Em rápida investida;

Ou se é apenas tanto
Quanto o pouco que dói,
Se por conter encanto
É que menos dor foi...

Não sei, nem me conheço.
Sentindo-a, esqueço a vida,
E porque a vida esqueço
Menos a alma é dorida.

Não sei… Frémito leve
De asa da maldição
Que ou pára, ou pousa breve
Sobre o meu coração.

23 - 1 - 1921

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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