O sino da igreja velha
Tem um som familiar,
E as casas baixas de telha
Não sei a que o sino toca

Não sei o que o sino evoca
Meu coração não coloca
As coisas no seu lugar.

Era outrora tão contente
Que já não sei se era eu.
Aquele que sou agora
Se existe, é porque morreu.

Não tem missa na igreja,
Nem cousa alguma que seja
O que sente ou deseja.
E o sino cessa no céu.

É à missa a que vão crentes
Ou a que vai quem lá vai
Que o sino com sons frequentes
Toca esse som que lhe sai —
Seja ao que for, vai tocando
E no meu coração brando
Como uma clepsidra soando
Cada som lembrado cai.

25 - 12 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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