No jardim suburbano da minha infância afastada
      Não há hoje nada.
Quem lá vive, vive num outro □, sem mim.
      A vida é assim.

É sempre viver agora no jardim que já foi
      E de longe me dói.
Com os olhos rasos de lágrimas relembro-o, afastado,
      Ou é no passado?

Que choro? É a vida, ou é ao jardim que findou
      Porque o que é já não sou?
E a minha alma é hoje outra, o meu coração
      Perdeu o irmão,

A criança que eu era, a minha antiga companhia,
      A □, a alegria
E é deserto o jardim ao brincar antes agora!
      Folha seca esta hora!

8 - 10 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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