Coa-se através da minh’alma
Como através dum vitral
Toda a agonia voluptuosa e incerta
De uma outra espécie de alma, mais jóia, mais pálio,
Gémea da minha, mas com Deus de permeio...

Cai sobre as mãos que alongo
— Olho-as distraidamente e esqueço —
Sobre o livro indecisamente lido
Parte da luz coada pelo vitral em febre,
E a cor que estagna nas minhas mãos dói-me nos olhos
Por um esquecimento corpo análogo a sombras...

Entretanto, não há a igreja, nem a solidão fria e ampla,
Nem o resto do incenso que faz tremer,
Nem a consciência de haver o altar pesando na alma...
Não; só o vitral e tudo isto através dele..

De aí a febre que, como uma antecâmara de templo secreto,
De templo para cultos inversos,
Me enche de possibilidades coloridas de meus sentidos,
A vista e o ouvido e o olfacto tendo só a vista...

Passos...

13 - 4 - 1916

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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